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Senador manda brasa
 


SÓLON BORGES DOS REIS ENTRE ASPAS

O professor Sólon Borges dos Reis (1917-2006) foi educador, político, advogado e poeta. Ex-secretário estadual da Educação, presidente eterno do Centro do Professorado Paulista, jornalista da velha guarda, “imortal” da Academia Paulista. Em 1947, fundou a União Paulista de Educação. Foi secretário da Educação do governador Carvalho Pinto e também ocupou a mesma pasta na administração do prefeito Paulo Maluf (1993-1996). Foi um dos fundadores da APEOESP, deputado estadual (1959/1979), e deputado federal por três mandatos. Presidiu, além disso, a Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado de São Paulo.

 

Idealizou e promoveu quatro congressos normalistas de educação rural, bienais, com alunos, professores e técnicos da saúde e da agronomia, para estudo, discussão e votação das teses originadas das tradicionais escolas normais oficiais, de Campinas, Piracicaba, Casa Branca e São Carlos. Em 1956, organizou o 1º Congresso Estadual de Educação Básica, em Ribeirão Preto.

 

Foi vice-prefeito de São Paulo quando Maluf era prefeito. Era um versejador até apreciável. Adoro particularmente duas poesias suas: uma sobre a terapêutica do riso (me escapa o nome dela....) e outra intitulada "Os meninos cor de terra".

 

Nos idos de 2002, 2003, 2004, o velho educador me recebeu para entrevistas e assinalou flashs da sua vida pública. Recorto aqui algumas passagens do seu depoimento:

 

Sobre seus livros:

“São dois para crianças, um aos 21 anos, chamado Apostasia, que seria uma descrença; depois teve A Maior Herança e o último, que foi premiado, A Crise Contemporânea da Educação.”

 

Em 1949, como presidente da União Paulista de Educação, foi o responsável pelas comemorações em todo o Estado de São Paulo do 30º aniversário de publicação do livro Saudade, do seu amigo Thales de Andrade, também educador. Saudade é um título pioneiro da literatura infantil brasileira:

“Eu adoro esse livro. Ele figurou muito tempo como cartilha. Eu fiz essa proposta e virou bola de neve. O livro foi consagrado. O Cuore, de Damicis, da Itália, você lê e cansa, porque só tem desastre e morte, desastre e morte. O Saudade não, é suave.”

 

Abaixo recorda como se deu sua a ascensão a assistente geral do ensino em 1948:

 

“Eu me apresentei ao secretário da Educação, João de Deus Cardoso de Melo Neto. Eu fui chamado lá e tinha um telegrama de todos os deputados de São Paulo indicando meu nome. O Thales que foi me convidar...Quando a gente estava na antesala esperando com o Thales de Andrade, esperando para ser recebido pelo secretário, passou um sujeito – não me lembro o nome dele – que era secretário da Secretaria do Departamento. Então, o Thales falou pra mim: “Sólon, é melhor você falar que é da UDN, pois o fulano esteve aqui e disse que você é da UDN...” Eu não era de nenhum partido: “Eu não vou dizer nada para ganhar o cargo.”

 

Quando eu entrei lá, uma surpresa: o secretário falou: “Eu sou político! Eu estou aqui fazendo política!! De modo que tudo aquilo que for relativo aos partidos, eu vou prestigiar: vereadores, deputados...” E passou por cima do presidente do partido. E disse: “Só que tem uma coisa, eu preciso do senhor. O sr. fica encarregado de não deixar fazer nada errado!”

 

Ou seja, o educador mandou dizer para eu errar para eu pedir o emprego e o secretário, ao contrário, falou pra mim que seja tudo no duro. Eu vou fazer um livro só sobre o João de Deus Cardoso de Melo Neto. Foi um colosso, igual a esse nunca teve”

 

Faz um balanço da sua atuação como jornalista (que cobriu inclusive os trabalhos da Assembléia Constituinte estadual de 1947) e como homem público:

 

“Hoje eu não pago mais Sindicato dos Jornalistas nem pago mais Ordem dos Advogados. Essas coisas pertencem ao passado. Mas naquele tempo eu fui mandado para a Constituinte Estadual em 1946. Nessa Constituinte, eu trabalhei muito, mais tarde eu vim a ser deputado também. Só me candidatei no fim dos anos 50 e estive 20 anos na Assembleia e depois na Câmara Federal eu fiquei cinco anos. Tudo que eu fiz está documentado. Eu consigo livros. Quando o Quércia foi governador, eu consegui que ele mandasse fazer livros como aquele do Carlos Rizzini [O Livro, o jornal e a tipografia no Brasil]. Eu passei 50 anos no CPP, mas nós cedemos o prédio antigo dele para o Metrô e fui eu que construí o que tem hoje. São 10 andares de vidro fumê preto: Edifício Professor Sólon Borges dos Reis. Você já viu?”

 

Também resgata alguns episódios do tempo em que foi vice do prefeito Paulo Maluf e seu secretário da Educação. Pelo jeito, eles se estranharam algumas vezes:

 

“O Maluf me convidou para trabalhar com ele. Eu não o vejo há muito tempo. O Maluf não se interessou pela educação. O Roberto Cardoso Alves queria que eu falasse com o Maluf para eu ser secretário. Nunca falei pra tirar vantagem pra mim. Uma moça da FMU foi escolhida por eles para ser secretária e ele me perguntou se eu podia apresentá-la para a imprensa. Levei lá na Câmara dos Vereadores e ela foi nomeada. Levei em sessão que houve na Câmara. Ela já estava falando como secretária. Numa terça-feira, eu cheguei em Brasília e me disseram que eu estava sendo chamado em São Paulo, que eu estava sendo procurado. “Quem é?” “É o Paulo Maluf.” Minha mulher veio a falecer nessa época...

 

Mas a moça não ficou, o Maluf tinha medo do Estadão, que chamou o pai da moça de dono de motel...Aí eu virei secretário. No primeiro ano, ele foi 100%, ele passou o cargo pra mim. Ele disse: “Eu vou viajar, e você vai inaugurar obra, promulga uma lei...” Eu disse: “Mas, péra um pouco: esse ‘negócio de lei’ eu topo...” Ele me deu carta branca. Eu promulguei um aumento salarial. Quando os professores fizeram concurso – mandei tudo fazer concurso na Fundação Carlos Chagas -, no dia seguinte, estavam todos aprovados, mas o Maluf falou pra mim que não podia nomear. Abriu uma gaveta lá que tinha um documento que dizia que não podia nomear. Com o passar do tempo, houve casos pitorescos. O mais terrível mesmo foi que eles deixaram atrasar o pagamento de parte dos inativos. Aí ele foi outra vez viajar. Só que não falou pra mim, falou pro Edevaldo [Alves das Silva, secretário de Governo de Paulo Maluf]. Eu, então, falei pro Edevaldo: “Eu tenho pedido constantemente ao Maluf, por escrito e verbalmente, para pagar os inativos.” Disse o Edevaldo: “Não, não pode, o prefeito não quer.” “Mas como não quer, tem que pagar...” O Edevaldo não queria falar mais...

 

Eu disse: “Então, eu não posso voltar pra Secretaria, então. Eu vou embora, porque eu tenho pedido até agora para completar o pagamento. Como é que eu faço? Tá bem, eu vou voltar, só que eu vou chamar a CUT.”

 

Eu queria que uma pessoa visse essas coisas...Na mesma hora, pagaram tudo. Acho que levou três minutos e não tocaram mais no assunto.

 

Uma vez, eu saí com ele. O Maluf convocou todo mundo para uma visita a uma escola. Entramos lá, já estava combinado. O pessoal ganhou uma lata de tinta e pintou o interior da escola. Mas na hora de sair, ele olhou: ‘Ué, o interior está pintado, mas aqui fora...Se eu fosse professor dessa escola, eu compraria uma lata de tinta e eu pintaria a fachada da escola...” Aí uma pobrezinha, mãe solteira, falou: “Com esse salário?” Ele queria que eu a despedisse. Eu falei pra ele: “Eu não sei se ela é efetiva, eu vou ver...” Aí eu chamei a delegada de ensino de Santo Amaro, e falei: “Escuta, chama essa professora e diga a ela que ela não será punida. Preste atenção: NÃO SERÁ PUNIDA!!” Vários jornais, rádio deram isso. Não sabiam com quem estava brigando.”

 



Escrito por gabriel às 22h45
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CORNETANDO

Supermercado é parque de diversões de idoso.

* * *

Guimarães Rosa acreditava que Krishnamurti era a segunda encarnação de Cristo.

* * *

Mentimos diariamente para nós mesmos.

* * *

Por que toda traveca que é "hostess" de balada é uma candidata a comediante?

Gabriel Senador Kwak



Escrito por gabriel às 11h51
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PRESENÇA DE FRANCO DA ROCHA

Franco da Rocha não é só nome de município. Foi o patrono da psiquiatria clínica em São Paulo.

 

Nascido em 1864, em Amparo (SP), cursou residência na Casa Eiras, centro psiquiátrico de excelência à época. Atuou, além disso, no Hospital de Alienados, na Várzea do Carmo.

 

Foi o idealizador, fundador e primeiro diretor do Hospital do Juqueri, localizado no Município que leva hoje o seu nome, porque empunhou a bandeira da centralização da assistência aos doentes mentais. Influenciado pelos estudos franceses, Francisco Franco da Rocha abraçou a “teoria da degeneração” de Morel. Dirigiu o Juqueri de 1898 a 1923.

 

Nunca é demais recordar e evocar ícones da neuropsiquiatria e do tratamento e readaptação dos alienados, dos psicopatas, dos neuróticos, como Franco da Rocha, Antônio Austregésilo, Raul Briquet, Afrânio Peixoto e Pacheco e Silva.

 

Afirmou Franco da Rocha certa vez: “Nenhuma enfermidade se apresenta ao médico tão rodeada de complicações e interpretações difíceis como a loucura. Basta lembrar que as aquisições mais importantes da fisiologia do cérebro têm sido fornecidas pela anatomia patológica deste órgão.”

 

Autor do Esboço de Psiquiatria Forense e de A Doutrina de Freud, foi precursor da psicanálise em São Paulo e o maior difusor da LABORTERAPIA, ou seja, a ocupação, os afazeres como terapêutica para tornar menos penosa a vida do insano, injetando um pouco de bem-estar ao portador de transtorno mental por meio do cultivo de aves e pássaros e do trato da terra durante as internações. O alienado torna-se útil, portanto.

 

Franco da Rocha também se distinguiu como legista, sendo seus laudos muito acatados nos tribunais, e como sumidade no estudo da superstição.

 

Vamos e venhamos que, tendo o movimento antimanicomial ganhado força nas últimas décadas, a contribuição de Franco da Rocha ficou datada, mas, para a época, ele foi sim um renovador, e sobretudo pela imperecível lição que sua trajetória representou, a saber: um olhar mais solidário ao alienado.



Escrito por gabriel às 13h59
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EM BUSCA DE RAFAEL PERO SOBRINHO

Aprendi muito na vida com o saudoso amigo professor Rafael Pero Sobrinho, que "se encantou", salvo engano, em 2001, aos 80 e poucos anos. Rafael foi professor de português e redação de renomados colégios, entre os quais Paulistano, Paes Leme e Porto Seguro. Fui premiado em seus últimos anos com pílulas de conhecimento nas conversas que levavámos, nas caminhadas que fazíamos no bairro da Aclimação - em que ambos mórávamos então -, nas correspondências em que trocávamos. Ainda o vejo: magrinho, ágil, gestos resolutos, cabelo rente, olhos vivos. Nunca o colhi numa grosseria, nem nunca flagrei-o dizendo algo em linguagem chã, de estivador. A essa altura, já tendo-se despedido das salas de aula, era assessor da diretoria do Colégio Anglo Latino, escola particular de nomeada, hoje de portas fechadas.

Trocávamos também livros. O mestre também me estendia periodicamente crônicas prosaicas e prazerosas, lições de português, pensamentos e súmulas de livros e autores clássicos, impressos modestamente em folhas sulfites A4, quando mereceriam estar hospedadas nos mais acatados suplementos literários e revistas culturais. Guardo comigo um jogo desses escritos.

Talvez nunca tenha lhe dito o quanto dele sou devedor...Difícil esquecer o professor Rafael Pero Sobrinho!!!

Compartilho com o eventual leitor um destes textos sobre o poeta Vicente de Carvalho (1866-1923):

“VICENTE DE CARVALHO – O HOMEM E O POETA

Santos, essa formosa pérola engastada no Atlântico, tem um passado histórico que a honra e nobilita.

Enumerar os feitos gloriosos de seus filhos ilustres, em todos os campos do saber humano, é tarefa quase desnecessária.

Eles por si só emergem das página das história, das ciências, do direito e das letras.

Há um santista, no entanto, que nos fala bem de perto ao coração, isto por ter sido ele o poeta de nossa preferência na infância, na mocidade e agora na idade madura: VICENTE DE CARVALHO.

Desse insigne varão focalizaremos, embora ligeiramente, dois aspectos – o homem e o poeta.

Como homem, Vicente de Carvalho deixou à sua descendência um nome que não só constitui justo orgulho para a família como também verdadeiro padrão de trabalho e honestidade.

Os exemplos extraordinários de altivez e correção moral, tornaram-no credor do apreço e respeito de seus contemporâneos.

Aos vinte anos de idade, em 1886, forma-se pela tradicional Faculdade de Direito de São Paulo, escola que tem dado ao Brasil tantos e tantos importantes vultos de nossa vida política e literária.

Muito moço ainda, aos vinte e seis anos, é guindado ao cargo de Secretário do Interior do Estado de São Paulo. Logo no início de sua fecunda atividade administrativa, enfrenta um sério problema que exige pronta e rápida solução: debelar a febre amarela e a varíola que grassavam em nossa terra. Procura extinguir esse terrível mal por todos os meios e modos ao seu alcance. Solicita, por carta, o concurso de dois cientistas de renome mundial: Pasteur, da França; Fuertes, dos Estados Unidos.

Pasteur, impossibilitado de vir, indica seu discípulo Felix Lê Dantec, ao passo que Fuertes aquiesce prontamente ao convite. Com esses dois cientistas, pôde Vicente de Carvalho sanear Santos e São Paulo.

Curta, infelizmente, foi sua passagem pela Secretaria do Interior, impedindo-o d emuita soutras realizações.

Desencantado com as ingratidões da política, procura dar novo rumo à sua vida. Torna-se fazendeiro em Franca, neste Estado, passando a dedicar-se à agricultura.

Com a inesperada crise do café, vê-se forçado a retornar a Santos, onde fixa residência, em 1901. Profundamente interessado na solução dessa crise, após apurados estudos, propõe ao governo a queima da produção excedente de café.

Na defesa de seu ponto de vista é obrigado a sustentar, pela imprensa, sérias polêmicas. Sua proposição, contudo, não logrou êxito e só o tempo foi capaz de mostrar quão certo estava.

Passou também esta notável figura humana pela magistratura, distinguindo-se sempre pelo alto espírito de imparcialidade e justiça.

Tinha esse guardião da lei, a par de sua austeridade, espírito brejeiro bem acentuado. Conta-se que certa vez um cidadão lhe solicitara a dispensa de jurado sob o pretexto de que era pessoa muito atarefada. O ínclito juiz deu este curioso despacho: “Indeferido. As funções de jurado não são privativas de vagabundos.”

Muitas eram as qualidades que exornavam o caráter de Vicente de Carvalho, o que nos possibilita dizer que criaturas dessa envergadura moral valorizam a espécie humana.

Quanto ao poeta diremos que o vate santista foi dos maiores que tivemos. As sucessivas edições de “Poemas e Canções” comprovam perfeitamente o valor de sua obra poética.

Integrou o autor de “Pequenino Morto” a escola parnasiana, ao lado de Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e Raimundo Correia, conquanto se revelasse independente.

Manuel Bandeira chegou mesmo a ver-lhe influência do Simbolismo.

Seus versos primorosos cantam principalmente o Amor e a Natureza.

Na poesia amorosa podemos, sem receio, colocá-lo em companhia dos grandes líricos da nossa língua, como Camões, Bocage, Garrett e outros.

No lirismo de seus versos avulta esse belíssimo poemeto “Rosa, Rosa de Amor”. Sentindo a natureza em todo o seu esplendor, cantou-a em versos magníficos. O poema “Palavras ao mar”, por exemplo, dificilmente encontrará paralelo em outra língua, tal a sua perfeição.

Vicente de Carvalho, esse ourives do verso, passou pela vida esparzindo beleza e eternizando, através de sua arte sublime, as coisas de nossa terra e de nossa gente.”



Escrito por gabriel às 22h20
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COPY DESK

 

Essa quem me contou foi Boris Casoy. O ex-presidente Jânio Quadros chegou a ser colaborador da Folha de S.Paulo. E remetia seu artigo manuscrito a Boris, em mensagens com o seguinte recado: "Corrija-o. Você conhece a reputação da minha Gramática. Corrija-o você mesmo. Cuide para que a minha gramática não sofra a ação de interposta pessoa."



Escrito por gabriel às 19h49
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NO DIVÃ

Palestrava outro dia com meu inspirado colega de trabalho, o fotojornalista Juvenal Pereira, beliscando uma caudalosa feijoada, e ele me disse que os psicanalistas são "ditadores da cabeça dos outros". Essa reflexão me endereçou para uma citação genial de Millôr, mestre de todos nós, que aqui copio: "Analista é um sujeito que, partindo de premissas falsas, consegue chegar a conclusões perfeitamente equivocadas."

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Por que raios nos livros velhos, aqueles da primeira metade do século passado, o sumário vinha no final?



Escrito por gabriel às 20h06
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"DÁ UMA AJUDINHA, MOÇO?"

O sentimento de culpa por fazer três refeições diárias diante da mão estendida de um pedinte.



Escrito por gabriel às 17h37
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DE SENECTUDE

Percebo-me velho. Tristemente. Uns quatro, cinco anos atrás estava entre os que engrossavam a "Peruada", festa itinerante dos alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que ocupa as ruas do Centro. Hoje, vi-me amaldiçoando os mesmos estudantes de mais uma edição dessa quase-micareta por me fazerem levar uma hora e vinte minutos da Avenida Rio Branco até o meu trabalho, trajeto que a pé não levaria mais do que 15 minutos...

AT LEAST...

Por que a "posologia" (que é o que realmente interessa) é um dos últimos itens das bulas?



Escrito por gabriel às 16h47
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ELOS DA MEMÓRIA NO MEU FICHÁRIO IMAGINÁRIO

Feliz ou infelizmente, quase tudo o que sou devo ao meu arquivo, aos meus cadernos de apontamentos e aos cerca de 2000 volumes da minha biblioteca - formada por ninguém mais do que eu mesmo. Tenho alma de arquivista, pareço nascido para ajuntar papelório. Qualquer folha cujo teor tenha algum vislumbre de permanência, ou alguma informação que futuramente me possa ser útil, preservo. Quando quero conferir algum fato histórico, ou a memória me trai na busca do acerto de uma citação, socorro-me desse meu acervinho implacável, para googlemaníaco nenhum botar defeito. Isso além de mania, é investimento profissional. E posso garantir: tenho preciosidades deliciosas nos meus papéis. Uma janela para a história pessoal e coletiva...



Escrito por gabriel às 10h49
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MARIÁTEGUI, POTENTADO DA RESISTÊNCIA

Não resta dúvida de que o socialista peruano José Carlos Mariátegui (1895-1930) foi uma das maiores cerebrações da historiografia internacional. Suas atuações como ensaísta, jornalista cultural, cronista, poeta, dramaturgo, professor das Universidades Populares Gonzalez Prada (UPGP) – ensinando a operários -, ativista político e fundador do Partido Socialista Peruano e da Confederación General de los Trabajadores Del Peru (CGTP) são as múltiplas faces de seu talento poliédrico.
Mariátegui nasceu em meio à grande efervescência nos círculos operários, com greves, organizações anarquistas etc. Foi reconhecido como o maior nome do pensamento marxista latino-americano. Empregava categorias de Marx para examinar a realidade da América Latina.

Também o contato de Mariátegui com a realidade européia (já que viveu de 1919 a 1923 entre França, Itália e Alemanha) constituiu um divisor de águas em sua vida. Sua obra traz subsídios valiosos para se repensar o conceito de nação, além de reunir argumentos substanciais em prol da liberdade sindical. Faz-se respeitar, assim, como formulador de coordenadas para a organização da união das classes proletárias. 
Também identificou em civilizações primitivas germes socializantes. "[Mariátegui] atribui grande importância às tradições coletivistas dos incas como elemento favorável ao desenvolvimento do comunismo entre as massas camponesas da região andina", reconhece Michael Löwy, no livro O Marxismo na América Latina
Outro ponto nuclear de seu esforço teórico é a problematização da questão indígena. Sua obra mais acatada, o clássico Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana (único livro do autor traduzido para o português) vai até as raízes desse problema. 
Para Mariátegui, não existe pleito mais nacionalista e vanguardeiro no Peru do que a luta pela causa indigenista. Em seu país os contingentes indígenas eram nada menos do que 4/5 da população. Por isso, em artigo de jornal intitulado Nacionalismo y vanguardismo em la ideología política (novembro de 1925), o autor chama atenção para os tempos pré-coloniais da História do Peru. Ao dizer que "o passadismo contenta-se, entre nós, com frágeis lembranças galantes do vice-reinado", Mariátegui quer salientar que a "peruanidade" não tem na colonização espanhola seu ponto de partida. 

Com essas felizes observações, o penseur peruano desconstrói o discurso nacionalista dos reacionários, que se reportavam a um passado falso que eles queriam ver restaurado. Ademais, Mariátegui considera que, nos povos política ou economicamente coloniais, socialismo e nacionalismo são corda e caçamba. Menciona como exemplo disso as lutas populares pró-independência na China, Turquia e Egito dos anos 20. Ou seja, países em que o movimento contra o modo de produção capitalista se confundiu com as agitações contra o imperialismo. 
Por ocasião do segundo aniversário da revista mensal Amauta, por ele fundada em setembro de 1926, escreveu um editorial salientando uma vez mais a filiação da publicação às causas socialista e indigenista. Nessa oportunidade, Mariátegui advogou a necessidade de uma redefinição do que se entende pelos termos "revolução" e "esquerda". Nesse editorial, o mestre peruano propugna uma sociedade socialista nos moldes indo-americanos, esconjurando um sistema socialista à européia, fruto de uma mera importação.

Também reitera nesse texto seu compromisso histórico com o materialismo filosófico e com o empiricriticismo, ao recusar enxergar as contradições por uma lente por demais metafísica, ao repelir as "desventuras estéreis (...) de espíritos incapazes de aceitar e compreender a época." 
Seria bastante fecunda uma redescoberta do trabalho de Mariátegui, ou até mesmo uma descoberta, visto que o autor é pouco cultivado no Brasil. Até porque seus textos são claros, curtos e grossos, em linguagem jornalística, no lugar da linguagem monográfica, nem sempre atraente.



Escrito por gabriel às 09h56
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POST-IT

O torpedo SMS é o filho bastardo do bilhetinho.



Escrito por gabriel às 17h23
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MENU DO DIA: SOPA DE LETRINHAS

Lobato, em charge de Guevara

MAIS UMA DO MESTRE ISRAEL

Certa vez, Monteiro Lobato, seu netinho, Rodrigo, e o amigo Israel Dias Novaes atravessavam de bonde a Praça General Polidoro, na Aclimação. Lobato morava no bairro. Na Praça, havia uma estátua em bronze de um arremessador de disco. O netinho vira-se para Lobato e pergunta para ele, que não morria muito de amores por militares:

- Quem é aquele ali da estátua?

- É o General Polidoro!!!

- Mas ele está pelado?!

- É porque ele acabou de sair do banho...

A COBRA NÃO VAI FUMAR

Já vou dizendo: não sou fumante militante (me relevem o "ante-ante"). Mas que essa inconstitucional lei antifumo é policialesca, segregacionista e discriminatória, não há dúvida. Além de estimular o dedodurismo, um vezo dos mais fascistas da praça.

"HOMBRIDADE, TERNURA e BRAVURA"

Este será o título do livro que a legendária militante trabalhista Therezinha Zerbini, 81, escreverá sobre Brizola. Segundo ela, o texto "está tomando corpo".

DISCÍPULOS de NEWTON

Os físicos são a vanguarda da sociedade



Escrito por gabriel às 08h48
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O PARAÍSO DOS FIGURINISTAS

Visitei semana passada a loja de artigos masculinos Plas, no nº 724 da Rua Augusta. Pergunto ao dono, o octogenário estilista belga Maurice Plas, se são 50 anos d etradição naquele ponto. "São 55", corrige-me o simpático e sorridente velhinho. Quem quer buscar um acessório esplendidamente bem confeccionado, quem gosta de uma boina caprichada, de uma bela echarpe, de um paletó de bom gosto, não pode deixar de conhecer a loja dessa entidade da elegância e da haute coiffure.

Salvo engano, monsieur Plas também conserta chapéus. E crava para mim a tendência para quem quer enfeitar a cabeça: os modelos novaiorquino, o indefectível panamá e, para os iniciantes, o infalível preto de aba curta (um "coringa").

Cada vez mais, Plas, que imigrou no Brasil em 1951 tangido pelo pós-guerra, se empolga com a crescente afluência de clientela jovem que aderiu à cultura do chapéu. "Nestes 53 anos de Brasil, eu desenhei e costurei inúmeras confecções em série, tailleurs para butiques, ternos, blusões e até vestido de noiva. (...) Eu que fiquei conhecido como um dos melhores alfaiates de São Paulo, passei a dedicar boa parte do meu tempo à estilização de vários modelos de boinas. Daí pra frente, meu trabalho foi destaque de inúmeros editoriais de moda. Crio desde chapéus de veludo e de algodão - mais estilo praia - até sofisticadas boinas de lã escocesa, conhecidas pelo Príncipe de Gales", depôs o chapeleiro para a revista França Brasil, de fevereiro/março de 2004.

A foto acima foi extraída do site da revista "Brasileiros". Crédito: Luiza Sigulem

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CURRENTE CALAMO

Escrevo aqui muito mais pra mim. Que me perdoem o individualismo, mas estas bizarrias que dedilho aqui são uma conversa comigo mesmo. Fazem-me bem. Embora despretensiosas, escritas "na perna", improvisadas, apoucadas, quase irrefletidas, são talvez minha "obra" mais sincera...

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"NADA SEI DESTA VIDA/ VIVO SEM SABER/ NADA SOUBE/NADA SABEREI..."

Cito Lula: “Vamos ver os debates que estão acontecendo no nosso querido Senado, uma instituição tão importante. Recentemente, o nível dos debates está abaixo da média da compreensão da nossa sociedade. [Os senadores] São pessoas formadas, com mais de 35 anos, que poderiam agir de forma mais civilizada. As pessoas se agridem de tal forma que mesmo o cidadão que gosta muito de política fica sem compreender o que está acontecendo."

Sempre ele, o nosso Macunaíma, afirmando que nada sabe, que não tem nada a ver com o peixe...Mas será que ele ignora que as cenas de pugilato verbal, que quase raiaram o telecatch, foram protagonizadas pelos canastrões da sua base de apoio. A tal "tropa de choque" não desfruta da sua simpatia? Mas, como sempre, nada é com o nosso mais bem acabado arquétipo do malandro brasileiro...



Escrito por gabriel às 18h47
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A MARAVILHOSA COZINHA DE HOUAISS - PARTE III

 

Na foto: Hélio Silva, Houaiss e Mario Lago

Continuo a reproduzir aqui as "Reminiscências culinárias", de Antônio Houaiss, por mais que transcrições sejam sempre meio tediosas em blogues. Houaiss, às vezes, assumia o comando da cozinha do Restaurante Rio Minho, no Rio:

"(...) E aí virá uma importante lição, conselho, guia ou o que quiserdes chamar: deve-se preservar do bom prato uma boa saudade e não uma praga pelas angústias do excesso; sair da mesa capaz de - por uns toques - voltar a ela com prazer - pode haver maior sabedoria?

Neste meu Rio de Janeiro e neste meu Brasil, experimentei, entre brasileiros e radicados no Brasil, os espectros possíveis do prazer de comer. Isso se consegue se a pessoa não tem interdições categóricas. Que minha eventual leitora me perdoe (dispenso, charmosamente, o perdão dele): quem afirma que não gosta de carnes, ou que não gosta de peixes, ou que não gosta de legumes, ou que não gosta de crus, ou que não gosta de defumados, ou que não gosta de um gênero comestório - isto é, quem não gosta de um conjunto de matérias-primas com suas práticas afins tradicionais entre os homens e suas culturas - ou é bobo, ou doente, ou grã-fino cuja riqueza lhe permite a frescura do procedimento, ou...Isso é de garota ou guria (ou gátula, gatúscula, gatinha, gatosa, gatunha) e seu guri (com equivalentes): mal-iniciados na vida por pais maus iniciadores. A alternativa é a filosofia autotanática: a autotânase - o matar-se a si mesmo - é postulada como solução para a insalvação do homem - suicidemo-nos todos. O mal é que o teórico, em lugar de praticá-lo, teoriza: nessa base, quem o fará primeiro?...

Saído do meu magistério, estava (estávamos, eu e a que me guiou, sem que eu soubesse, por muitas - quase cinco - décadas) em condições de exercer a vida diplomática: diz-se que o mundo é hoje uma aldeia, no sentido de que o confinamento incomunicativo da aldeia do passado nada tem que ver com o presente: experimentei, gastronomicamente, países europeus, asiáticos, africanos, latino-americanos, e, da Oceania, que não vi, experimentei o que dela se oferecia nessas partes do mundo. Vi famílias - em geral de adidos bélicos - infelicíssimas, porque a culinária francesa lhes era intragável, como era a italiana, ou a espanhola, ou...

Preparado para a universalidade - como desejo gustatório pré-salivadamente apto e intelectualmente motivado - tenho a impressão de que nada não se me ensejou, quero dizer - tudo se me ensejou. É muito pretensioso o que vou dizer: mas, tomando como termo de referência o que tenho lido sobre comidas (em leituras sistemáticas ou acidentais), vejo que pouco não experimentei: não experimentei, por exemplo, placenta do filho (ou filha), grelhada, oferecida entre os amigos eleitos dos pais - jamais visitei as áreas limitadas da Sibéria em que essa prática ocorreu ou ocorre: não comi o miolo cru e vivo dos macaquinhos de Macau e adjacências. Mas comi (e repito, quando posso) a tripa gorda platense; comi as aranhas vivas equatorianas praticadas como quase exclusividade nacional; comi - em certas áreas, algo vulgar - gafanhotos, que desde João Batista deviam estar universalizados; comi formigas postas vivas a frigir - prática alías muito brasileira, que o diga mestre Monteiro Lobato; comi - e gostei, quase invariavelmente - certos miúdos e pedaços de carneiro assados ou cozidos na Páscoa ortodoxa grega; comi cabritos sardos; comi - também - requintes de Budapeste, Paris, Madri, Lisboa, Florença, Roma. Houve um dado momento em que, ao saber só de experiências feito, se juntou seu complemento natural, que é o saber sabível pela experiência feita e induzível para o experimento acertado: a alegria da aventura do novo, que é fundamental para o homem - esse ser necessariamente inventor, construtor, modificador - e, às vezes, fatalmente destrutor/destruidor. Até hoje, uma das satisfações que me permito é - fim de noite, em minha casa ou na de amigo - ir para a cozinha e improvisar com o que houver: as 'limitações' do acaso dão-me, por vezes, inspirações que eu deveria ter anotado...

A lição de minha sobrevivência praticante é a de que na base o homem sobrevive primeiro porque, ser de vida, obedece à lei fundamental da vida, a saber, sobrevive do que vive (em que tudo lhe é comestível), deixando às formas elementares de vida o processo de incorporar à vida o que ainda não é vida; segundo porque, no que se lhe oferece para viver, tem buscado - e não se lhe oferece alternativa - a necessidade de respeitar a 'lei da vida', isto é, preservar da Natureza tudo com que sobrevive - as condições para que essa mesma Natureza possa, nos séculos ou milênios ou milionênios por virem, oferecer-lhe o que ele, muito frequentemente, não tem sabido preservar como sobrevivente/supérstite.

E - aqui muito para nós - é lícito aceitar que a vida é uma porcaria? Admitamos três hipóteses: 1) é - mas não para a maioria, tanto assim que essa maioria luta incansavelmente por preservá-la: condenar, assim, a vida, não é um ato filosófico, é um ato socialmente segmentar de quem não tem por que lutar pela vida; 2) a vida é um acidente cosmológico que não faz sentido para o homem presente e futuro e deve ter seu problema essencial relegado para o porvir cognitivo; 3) a vida é uma fantasia, não se sabe de quem, para quem, sobre quem, é uma fantasia, é uma fantasia do cosmo ou do átomo ou do nada.

Está claro que, para um livro 'prático' como este, as considerações acima só são cabíveis porque se relacionam com o ato mesmo de viver - com o que poderia terminar minhas saudades. Mas devo acrescentar algo.

Sempre que possível, fiz-me amigo de quantos chefs pude conhecer - quer chefs ´profissionais, quer amadores. Pude, assim, praticar ao vivo. Fiz com minha mãe os seus pratos. E os fiz com minha mulher. Fiz churrascos nos pampas uruguaios e argentinos e gaúchos - em que apreciei, além dos chinchulines, as criadilhas, os rins, os fígados. Fiz mezedákia na Grécia, onde vi que - malgrado os rigores da guerra mundial e da guerra intestina - seu povo sabia safar-se com cultura, isto é, com pão, azeitonas, tomates crus, pepinos, óregão, sal e seu quanto de vinho retzina. Certa vez, secretário de embaixada, sob greve geral do pessoal doméstico da mesma, para que os embaixadores meus amigos não perdessem a face, preparei a toque de caixa uma recepção comestória para mais de cem convidados - já que os importados de Miami chegariam, via aérea, no dia seguinte. Gosto da comida indonésia - como sabe lidar com pedra em brasa! -, da chinesa (mãe de todas - ou quase todas - as asiáticas e ainda a melhor), da japonesa, da coreana, da tailandesa, da cingalesa...

Sempre me lembro do bom naco de hipopótamo que me foi oferecido, quentinho, à beira do lago Tanganica, em Usumbura, no alto planalto central africano, sabendo que a oportunidade se me oferecia por duplo acidente - o de estar lá e o de comer hipopótamo acidentado e por isso abatido, já que era então (e espero que continue) protegido por todas as leis imagináveis. Assim, ter degustado jacaré ou crocodilo, gusano ou testículos de galo, iscas de cobra ou cebiches, açafrão verdadeiro ou foie-gras, caviar ou salmão, pé-de-porco ou lábios vulvares de vitela - ao som de cervejas ou vinhos de todas as cores, todos os bouquets, todos os corpos e todas as gradações alcóolicas - é coisa de que não me orgulho, mas confesso que pratiquei, com a relativa virtude de não me ter jamais excedido, salvo, episodicissimamente, quanto a uma ou outra carraspaninha intimista.

Como ostras cruas desde criança e jamais tive remoto sinal de intoxicação - porque jamais aceitei ostra crua já arrancada do seu cordão umbilical, de onde deve ser tirada - resistidamente - pelo que vai comê-la, pois, caso contrário, corre o risco...; gosto de jiló, pratico qualquer legume com enlevo, acho alho e cebola - de crus a assados, juntos ou separados - fundamentais em certos pratos, faço umas alcachofras soberbas, acompanho com emoção o cozido à baiana, cuja receita vai neste livrinho.

Tive - por motivos político-emocionais, muito provavelmente - uma úlcera gastroduodenal há quase quarenta anos, de que só tomei conhecimento no dia em que, autocurada, me estenosou o piloro. Operado, dois meses depois, em Madri, burlando vigilâncias e cuidados conjugais e amicais, me fartei de manzanillas e copetines e a variedade infinita de frutos do mar que essa cidade - duplamente mediterrânea - oferece como talvez nenhuma cidade marítima do mundo o faça. E comer só me tem feito bem.

No fundo, suspeito que o melhor breve contra azias, indigestões, afrontamentos, colites, gastrites, enterites e quantas -ites quiserdes é a boa disposição espiritual (e humoral, salivar, secretória, excretória) com que se vai - na hora em que se deve ir - à mesa. Se possível, sem preconceitos, digo, pré-conceitos, pois que, em não havendo o que estava pré-concebido, sempre há imaginação para alternativas."

(CONTINUA...)



Escrito por gabriel às 15h19
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BOA NOITE, ISRAEL DIAS NOVAES

Quanto lamento não ter podido comparecer à última sessão da nossa Academia lá na serra para homenagear a memória de Israel Dias Novaes, recentemente falecido. Não poderia deixar de endereçar pelo menos uma mensagem aos meus confrades do sodalício de Campos do Jordão. Ei-la. Intitula-se "Boa Noite, Israel Dias Novaes":

"Se tive cinco mestres na vida, poderia alinhar Israel Dias Novaes (1920-2009) entre um deles, embora tenha privado de sua inteligência fulgurante na última fase de sua vida. Entrevistei-o pelo menos meia dúzia de vezes, sobretudo na sua casa da Rua Luxemburgo. Eu colecionava incansavelmente suas tiradas, seus epigramas, seus mots d’ esprits, seus impagáveis “causos” caipiras inspirados em Avaré e região, todas essas manifestações em que se revelavam seu raciocínio rápido no gatilho e sua verve, que esgrimiu por anos em artigos, ensaios, reportagens, conferências, prefácios, dedicatórias, apartes parlamentares que desnorteavam o oponente na tribuna. Recupero aqui uma das boutades de Israel dita a este repórter e confrade sobre um seu adversário político em Avaré: “O Romeu Bretas prestou grandes favores à minha família. Prendeu todos...”

Israel gostava de dizer que sempre foi sobretudo repórter – por 30 anos respondeu pelo cargo de redator-chefe do velho diário Correio Paulistano. Salientaria, entre dezenas de outras missões que lhe couberam ao longo da sua vertiginosa vida, também o agitador cultural, o mecenas. Quantas agremiações culturais e literárias talvez não teriam fechado suas portas não fosse o concurso de Israel a lhes dar alma, entidades como a Academia Paulista de Jornalismo, o Instituto Genealógico Brasileiro, a Ordem dos Velhos Jornalistas e o Instituto Histórico e Geográfico. Recordaria também o amigo e confidente de Mario de Andrade no legendário endereço deste último, na Rua Lopes Chaves; o intérprete arguto da obra imaginosa de Monteiro Lobato; o homem de confiança do prefeito Prestes Maia; o biógrafo definitivo de Fagundes Varela e do chileno Pablo Neruda; o implacável e irônico adversário do então governador Adhemar de Barros na Assembléia Legislativa.

Acaricio sobre a minha mesa de trabalho seu último livro, que reúne seus artigos no jornal acadêmico O Libertador, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, órgão que vergastava a ditadura do Estado Novo, que encarcerou Israel nove vezes.

Não resisto em resgatar aqui, nestas linhas desengonçadas, outro exemplo de desafiadora bravura moral do homem público e do parlamentar escorreito que o acadêmico foi. Em 1968, não hesitou em enfrentar o regime militar ao defender o mandato do seu colega de Câmara dos Deputados, Marcio Moreira Alves, que o governo queria processar na Justiça. Esses gesto destemido custou a cassação do mandato de Israel em consequência do nefasto AI-5.

Entre tantas e tamanhas iniciativas parlamentares de Israel avulta o Seminário sobre Censura organizado e presidido por ele na Câmara dos Deputados, em pleno regime militar. O simpósio constitui talvez o mais notável manancial de estudos, testemunhos e intervenções sobre o assunto, até então tabu, antes do pioneiro certame. As contribuições dos artistas, professores e estudantes merecem ser resgatadas do olvido e enfeixadas em livro, mais um a enriquecer a bibliografia do seu principal dínamo: Israel Dias Novaes.

Galhardamente, sua zelosa filha, minha amiga MARIA AMÉLIA NOVAES, fez editar nos últimos anos muitos dos imperdíveis textos de Israel, que até então se encontravam infelizmente dispersos em arquivos, coleções de periódicos e Anais legislativos. Títulos como a coletânea Revisão de uma Jornada e a envolvente fotobiografia Um Paulista de Avaré, todos confiados à supervisão editorial de Paul González, valorizados por simpaticíssimo projeto gráfico e enriquecidos por introduções esclarecedoras e aturadas. Antes, só podíamos saborear uma antologia dos ensaios e perfis de Israel se folheássemos um esgotadíssimo livreto seu dos anos 80 intitulado Papel de Jornal, impresso mesmo em papel de jornal...!!! Nunca cansemos de aplaudir o inestimável serviço de utilidade pública prestado por Maria Amélia!!!

Aliás, guardo a impressão de que Israel experimentou uma velhice muito feliz, muito doce. Parecia-me que, no seu outono, ele foi bastante aconchegado pela sua família, que o cercava de caloroso carinho, preservando-o de ruinosos desgastes físicos e emocionais. Sua quixotesca vida intelectual sempre encontrou porto seguro no companheirismo de sua amada esposa, Marina.

Em se tratando do Israel bibliófilo, eterno enamorado das estantes, devo acrescentar que  sua brasiliana talvez constitua a mais notável coleção particular de que tenhamos notícia. Seu acervo de 30 mil volumes ricamente encadernados hospedam preciosidades como alguma correspondência trocada entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos e os originais datilografados do clássico Raízes do Brasil, com emendas feitas de próprio punho por Sérgio Buarque de Holanda. Em sessão dedicada à sua memória na Academia Paulista de Letras, José Mindlin, outro inexcedível colecionador, consagrou a Israel emocionado pronunciamento.

Muito mais teria a ajuntar sobre o que representou Israel Dias Novaes para esta Academia como também para o jornalismo, para as letras, para a bibliofilia, para o Parlamento, para a Academia Paulista de Letras – que presidiu exemplar e empreendedoramente -, mas prefiro deter a palheta para ficar apenas nessa breve aquarela do incomparável mestre e semeador de beleza. “A morte não extingue, transforma; não aniquila, renova; não divorcia, aproxima”, assinalava o imortal Rui Barbosa.

Requiescat in pace, Israel Dias Novaes, meu tipo inesquecível!!!"

 

 



Escrito por gabriel às 16h58
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