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DÉCIO PIGNATARI E O IMPLEMENTO DA COMUNICAÇÃO EFICAZ

Gabriel Kwak

Um dos luminares da comunicação visual, Décio Pignatari, falecido a dezembro último, desdobrou-se em muitos ângulos: poeta, ensaísta, ficcionista, semiólogo, publicitário, tradutor,dramaturgo, teórico da arte, jornalista, crítico de TV, professor, memorialista, ator bissexto. Fundador da poesia concreta, influenciou sobremaneira a Arquitetura, o Design e as Artes Gráficas.

Tendo Oswald de Andrade como santo do seu altar, os concretos se contrapunham ao que alguns deles chamavam de “nerudismo”, uma praga a ser combatida. Décio, igualmente, não flertava com o sentimental em poesia. Os que não se afeiçoavam ao projeto verbivocovisual dos três mosqueteiros do concretismo deveriam simpatizar com o trecho da música “Você abusou”, de Antonio Carlos e Jocafi: “[E me perdoe] se o quadradismo dos meus versos vai de encontro aos intelectos, que não usam o coração como expressão...” A poesia subjetiva era a bête noire do trio que, em 1974, traduziu Mallarmé (Décio chamou a empreitada de “tridução”, ou seja, tradução em triálogo).

Sempre com as garras afiadas para o debate, o cortante Décio nunca se furtou de terçar armas com os que amaldiçoavam a poesia esquemática, semiótica, não verbal do grupo concreto. A poesia concreta é mais design gráfico do que poesia, para o meu gosto. Forma e conteúdo não se separam. A ênfase recai no SIGNIFICANTE em detrimento do SIGNIFICADO. Muita dessa atitude tinha de um vanguardismo formalista empobrecedor.

Décio Pignatari era um teórico da poesia, um teórico da comunicação. Influenciou músicos populares de vanguarda como Caetano e Gil, pautou os estruturalistas, estudou meticulosamente o processo de formação de signos, pictografias, ilustrações, campanhas publicitárias. Criou a expressão “geléia geral” e consentiu que seus textos fossem musicalizados e gravados por consagrados nomes da nossa música, como Gilberto Mendes. Bateu-se, como os Campos, pela redescoberta de Sousândrade (1832-1902).

Mas, com o máximo respeito à destreza verbal, à perícia linguística de um Haroldo de Campos, transcriador e multimídia, pergunto a mim mesmo: será que o Brasil está preparado para tudo isso? Para essa poética, essa engenhosidade vocabular? Estaria eu próprio aparelhado para um e.e.cummings, um Mallarmé, um Pound, um Joyce?

O que sei é que seu livro seminal Informação, Linguagem, Comunicação foi decisivo para que eu tomasse gosto pela Semiótica, disciplina execrada por nove entre dez estudantes de Comunicação. A Teoria da Comunicação passou a ser palmilhada por mim graças a esse inesquecível compêndio.

Sua aproximação com a Semiótica e a Cibernética se iniciou com suas peregrinações pela Europa entre 1954 e 1956. Décio Pignatari criou a primeira cadeira de Teoria da Informação na Guanabara, a Escola Superior de Desenho Industrial, tendo sido seu primeiro professor e organizador do primeiro programa dessa disciplina. Ele mesmo conta: “Ainda em 1964, Luiz Ângelo Pinto e eu publicamos a primeira divulgação sobre a Teoria da Informação, aplicando o levantamento estatístico a textos com o auxílio de um computador eletrônico.”

No já citado Informação, Linguagem, Comunicação, Décio disserta sobre as diferenças entre mensagens de natureza digital e analógica. Faz enxuta explanação sobre as línguas orientais (analógicas) e as ocidentais (digitais). Cuida, ainda, da etimologia visual do canji japonês.

É menos abstrato esclarecer a ordenação de um ideograma, ordenação que é feita por justaposição. Ensina Décio, na página 21: “Em chinês, o ideograma para vermelho é formado pela montagem de quatro ideogramas (rosa, cereja, ferrugem, flamingo) que designam coisas que todo mundo conhece e que têm em comum a cor vermelha.”

Sobre a organização do poema concreto como um ideograma, pronunciou-se José Lino Grunewald: “Apollinaire também percebeu a relevância desse fator preponderante – o ideograma. Dizia que a nossa inteligência precisa habituar-se a pensar sintético-ideograficamente em vez de analítico-discursivamente.”

Para Décio, a redundância dos signos leva à abertura da participação de quem tem um repertório reduzido, um código restrito. Quando o signo faz parte do repértório de uma balconista, por exemplo, ela projeta neles sua experiência. Daí porque o autor nos acena ao dizer que o livro comercial ideal “é o que contèm apenas 10% de novidade”.

No mesmo ensaio, Décio relativiza os rótulos do que é arte chamada de produção e do que é arte de consumo. Décio sempre fez questão de refletir sobre o sistema de produção da arte. Também meditou de maneira aguda sobre a crise da universidade, para ele incapaz de criar e produzir pensamento bruto.

Décio contrapôs a “qualidade europeia” e a “qualidade norte-americana”, ao assinalar que os europeus, já àquela altura (o livro é de 1968), estavam se adaptando às necessidades dos mercados de consumo de massa. Décio aborda, também, o processo das elites levarem cultura às massas e vice-versa. Segundo Décio, nossas elites traduzem mal as informações que impõem às massas (“culturalização das massas” e “massificação da cultura”).

Em Informação, Décio disseca conceitos como “o custo da transmissão dos signos” (Mandelbrot), o “princípio do menor esforço que rege as atividades humanos” (Zipf, que, para Décio, tem tudo a ver com redundância), a “Estétística” de Max Bense, além de tratar dos levantamentos estatísticos de palavras em textos, ou seja, linguística matemática/ análise estatística e informacional de estilos literários (esses estudos são efetuados com o emprego de computadores eletrônicos...) Poucos dominaram tanto a aplicação de critérios estatísticos como Décio. Esses estudos repercutiram enormemente no Desenho Industrial.

Décio também endossa uma tendência captada por Marshall McLuhan de que o “veículo novo artistifica o anterior”.

No tocante ao isolamento de Brasília, Décio também se ocupa do ruído na cadeia de transmissão da mensagem disseminado em Brasília pela precariedade do seu sistema nervoso, ou seja, da comunicação pouco desenvolvida. Reclama, então, o concurso de engenheiros-de-sistemas para o desenvolvimento dos “sistemas nervosos” nos edifícios, núcleos habitacionais e cidades. Para Décio, só se cuidou da “comunicação motofísica, digamos assim (sistema viário).” (p. 74)

Décio lembra, ainda, que o cineasta russo Eisenstein buscou inspiração na composição figurativa do ideograma para suas técnicas de montagem. Veja-se citação de um site que consultei há pouco: “O filme é dividido em cinco partes que se ocupam em provocar uma situação tal de espaço-tempo onde todos os pormenores apresentam um significado a ser apreendido pelo espectador. De forma a transcrever ideias complexas e ideologias profundas, Eisenstein chegou ao uso de técnicas de montagem inspiradas nos ideogramas orientais. Se determinado ideograma significa ‘telhado’ e outro, ‘esposa’, a união dos dois é lida como lar. Desta forma, é o choque entre duas imagens aparentemente díspares que cria o impacto, o sentido a que se quer chegar.”

A conclusão a que chego depois de muito perquirir e aprender com este manual é que o tempo todo o autor parece estar preocupado com a otimização da mensagem, com o rendimento do sistema.

Décio, como seus parceiros Haroldo e Augusto, sempre manobrou o triálogo música-poesia-imagem, mediante instalações, intervenções, animações, videoarte, gravações, oralizações das suas poesias experimentais. Enfim, transcriações intermidiáticas, como eles gostariam de dizer...mas, apesar de todo esse legado e controvérsia suscitadas, o autor do romance Panteros parecia não dar a mínima para o reconhecimento, como decretou em entrevista à Folha de S. Paulo em 2.007: “Eu não quero saber disso, não me importo. Não existe vanguarda majoritária. O signo novo não pode ser majoritário. O novo põe em questão o que foi feito antes.



Escrito por gabriel às 10h55
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