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ELOS DA MEMÓRIA NO MEU FICHÁRIO IMAGINÁRIO

Feliz ou infelizmente, quase tudo o que sou devo ao meu arquivo, aos meus cadernos de apontamentos e aos cerca de 2000 volumes da minha biblioteca - formada por ninguém mais do que eu mesmo. Tenho alma de arquivista, pareço nascido para ajuntar papelório. Qualquer folha cujo teor tenha algum vislumbre de permanência, ou alguma informação que futuramente me possa ser útil, preservo. Quando quero conferir algum fato histórico, ou a memória me trai na busca do acerto de uma citação, socorro-me desse meu acervinho implacável, para googlemaníaco nenhum botar defeito. Isso além de mania, é investimento profissional. E posso garantir: tenho preciosidades deliciosas nos meus papéis. Uma janela para a história pessoal e coletiva...



Escrito por gabriel às 10h49
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MARIÁTEGUI, POTENTADO DA RESISTÊNCIA

Não resta dúvida de que o socialista peruano José Carlos Mariátegui (1895-1930) foi uma das maiores cerebrações da historiografia internacional. Suas atuações como ensaísta, jornalista cultural, cronista, poeta, dramaturgo, professor das Universidades Populares Gonzalez Prada (UPGP) – ensinando a operários -, ativista político e fundador do Partido Socialista Peruano e da Confederación General de los Trabajadores Del Peru (CGTP) são as múltiplas faces de seu talento poliédrico.
Mariátegui nasceu em meio à grande efervescência nos círculos operários, com greves, organizações anarquistas etc. Foi reconhecido como o maior nome do pensamento marxista latino-americano. Empregava categorias de Marx para examinar a realidade da América Latina.

Também o contato de Mariátegui com a realidade européia (já que viveu de 1919 a 1923 entre França, Itália e Alemanha) constituiu um divisor de águas em sua vida. Sua obra traz subsídios valiosos para se repensar o conceito de nação, além de reunir argumentos substanciais em prol da liberdade sindical. Faz-se respeitar, assim, como formulador de coordenadas para a organização da união das classes proletárias. 
Também identificou em civilizações primitivas germes socializantes. "[Mariátegui] atribui grande importância às tradições coletivistas dos incas como elemento favorável ao desenvolvimento do comunismo entre as massas camponesas da região andina", reconhece Michael Löwy, no livro O Marxismo na América Latina
Outro ponto nuclear de seu esforço teórico é a problematização da questão indígena. Sua obra mais acatada, o clássico Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana (único livro do autor traduzido para o português) vai até as raízes desse problema. 
Para Mariátegui, não existe pleito mais nacionalista e vanguardeiro no Peru do que a luta pela causa indigenista. Em seu país os contingentes indígenas eram nada menos do que 4/5 da população. Por isso, em artigo de jornal intitulado Nacionalismo y vanguardismo em la ideología política (novembro de 1925), o autor chama atenção para os tempos pré-coloniais da História do Peru. Ao dizer que "o passadismo contenta-se, entre nós, com frágeis lembranças galantes do vice-reinado", Mariátegui quer salientar que a "peruanidade" não tem na colonização espanhola seu ponto de partida. 

Com essas felizes observações, o penseur peruano desconstrói o discurso nacionalista dos reacionários, que se reportavam a um passado falso que eles queriam ver restaurado. Ademais, Mariátegui considera que, nos povos política ou economicamente coloniais, socialismo e nacionalismo são corda e caçamba. Menciona como exemplo disso as lutas populares pró-independência na China, Turquia e Egito dos anos 20. Ou seja, países em que o movimento contra o modo de produção capitalista se confundiu com as agitações contra o imperialismo. 
Por ocasião do segundo aniversário da revista mensal Amauta, por ele fundada em setembro de 1926, escreveu um editorial salientando uma vez mais a filiação da publicação às causas socialista e indigenista. Nessa oportunidade, Mariátegui advogou a necessidade de uma redefinição do que se entende pelos termos "revolução" e "esquerda". Nesse editorial, o mestre peruano propugna uma sociedade socialista nos moldes indo-americanos, esconjurando um sistema socialista à européia, fruto de uma mera importação.

Também reitera nesse texto seu compromisso histórico com o materialismo filosófico e com o empiricriticismo, ao recusar enxergar as contradições por uma lente por demais metafísica, ao repelir as "desventuras estéreis (...) de espíritos incapazes de aceitar e compreender a época." 
Seria bastante fecunda uma redescoberta do trabalho de Mariátegui, ou até mesmo uma descoberta, visto que o autor é pouco cultivado no Brasil. Até porque seus textos são claros, curtos e grossos, em linguagem jornalística, no lugar da linguagem monográfica, nem sempre atraente.



Escrito por gabriel às 09h56
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