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BOA NOITE, ISRAEL DIAS NOVAES

Quanto lamento não ter podido comparecer à última sessão da nossa Academia lá na serra para homenagear a memória de Israel Dias Novaes, recentemente falecido. Não poderia deixar de endereçar pelo menos uma mensagem aos meus confrades do sodalício de Campos do Jordão. Ei-la. Intitula-se "Boa Noite, Israel Dias Novaes":

"Se tive cinco mestres na vida, poderia alinhar Israel Dias Novaes (1920-2009) entre um deles, embora tenha privado de sua inteligência fulgurante na última fase de sua vida. Entrevistei-o pelo menos meia dúzia de vezes, sobretudo na sua casa da Rua Luxemburgo. Eu colecionava incansavelmente suas tiradas, seus epigramas, seus mots d’ esprits, seus impagáveis “causos” caipiras inspirados em Avaré e região, todas essas manifestações em que se revelavam seu raciocínio rápido no gatilho e sua verve, que esgrimiu por anos em artigos, ensaios, reportagens, conferências, prefácios, dedicatórias, apartes parlamentares que desnorteavam o oponente na tribuna. Recupero aqui uma das boutades de Israel dita a este repórter e confrade sobre um seu adversário político em Avaré: “O Romeu Bretas prestou grandes favores à minha família. Prendeu todos...”

Israel gostava de dizer que sempre foi sobretudo repórter – por 30 anos respondeu pelo cargo de redator-chefe do velho diário Correio Paulistano. Salientaria, entre dezenas de outras missões que lhe couberam ao longo da sua vertiginosa vida, também o agitador cultural, o mecenas. Quantas agremiações culturais e literárias talvez não teriam fechado suas portas não fosse o concurso de Israel a lhes dar alma, entidades como a Academia Paulista de Jornalismo, o Instituto Genealógico Brasileiro, a Ordem dos Velhos Jornalistas e o Instituto Histórico e Geográfico. Recordaria também o amigo e confidente de Mario de Andrade no legendário endereço deste último, na Rua Lopes Chaves; o intérprete arguto da obra imaginosa de Monteiro Lobato; o homem de confiança do prefeito Prestes Maia; o biógrafo definitivo de Fagundes Varela e do chileno Pablo Neruda; o implacável e irônico adversário do então governador Adhemar de Barros na Assembléia Legislativa.

Acaricio sobre a minha mesa de trabalho seu último livro, que reúne seus artigos no jornal acadêmico O Libertador, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, órgão que vergastava a ditadura do Estado Novo, que encarcerou Israel nove vezes.

Não resisto em resgatar aqui, nestas linhas desengonçadas, outro exemplo de desafiadora bravura moral do homem público e do parlamentar escorreito que o acadêmico foi. Em 1968, não hesitou em enfrentar o regime militar ao defender o mandato do seu colega de Câmara dos Deputados, Marcio Moreira Alves, que o governo queria processar na Justiça. Esses gesto destemido custou a cassação do mandato de Israel em consequência do nefasto AI-5.

Entre tantas e tamanhas iniciativas parlamentares de Israel avulta o Seminário sobre Censura organizado e presidido por ele na Câmara dos Deputados, em pleno regime militar. O simpósio constitui talvez o mais notável manancial de estudos, testemunhos e intervenções sobre o assunto, até então tabu, antes do pioneiro certame. As contribuições dos artistas, professores e estudantes merecem ser resgatadas do olvido e enfeixadas em livro, mais um a enriquecer a bibliografia do seu principal dínamo: Israel Dias Novaes.

Galhardamente, sua zelosa filha, minha amiga MARIA AMÉLIA NOVAES, fez editar nos últimos anos muitos dos imperdíveis textos de Israel, que até então se encontravam infelizmente dispersos em arquivos, coleções de periódicos e Anais legislativos. Títulos como a coletânea Revisão de uma Jornada e a envolvente fotobiografia Um Paulista de Avaré, todos confiados à supervisão editorial de Paul González, valorizados por simpaticíssimo projeto gráfico e enriquecidos por introduções esclarecedoras e aturadas. Antes, só podíamos saborear uma antologia dos ensaios e perfis de Israel se folheássemos um esgotadíssimo livreto seu dos anos 80 intitulado Papel de Jornal, impresso mesmo em papel de jornal...!!! Nunca cansemos de aplaudir o inestimável serviço de utilidade pública prestado por Maria Amélia!!!

Aliás, guardo a impressão de que Israel experimentou uma velhice muito feliz, muito doce. Parecia-me que, no seu outono, ele foi bastante aconchegado pela sua família, que o cercava de caloroso carinho, preservando-o de ruinosos desgastes físicos e emocionais. Sua quixotesca vida intelectual sempre encontrou porto seguro no companheirismo de sua amada esposa, Marina.

Em se tratando do Israel bibliófilo, eterno enamorado das estantes, devo acrescentar que  sua brasiliana talvez constitua a mais notável coleção particular de que tenhamos notícia. Seu acervo de 30 mil volumes ricamente encadernados hospedam preciosidades como alguma correspondência trocada entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos e os originais datilografados do clássico Raízes do Brasil, com emendas feitas de próprio punho por Sérgio Buarque de Holanda. Em sessão dedicada à sua memória na Academia Paulista de Letras, José Mindlin, outro inexcedível colecionador, consagrou a Israel emocionado pronunciamento.

Muito mais teria a ajuntar sobre o que representou Israel Dias Novaes para esta Academia como também para o jornalismo, para as letras, para a bibliofilia, para o Parlamento, para a Academia Paulista de Letras – que presidiu exemplar e empreendedoramente -, mas prefiro deter a palheta para ficar apenas nessa breve aquarela do incomparável mestre e semeador de beleza. “A morte não extingue, transforma; não aniquila, renova; não divorcia, aproxima”, assinalava o imortal Rui Barbosa.

Requiescat in pace, Israel Dias Novaes, meu tipo inesquecível!!!"

 

 



Escrito por gabriel às 16h58
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CAETANO EM 3 X 4

 

Foi do meu agrado o documentário "Coração Vagabundo", com Caetano Veloso. Devo dizer, de saída, que NÃO SE TRATA de uma biografia do poeta. É uma costura de trechos de depoimentos tomados na turnê "Foreign Sound" de Caê nos Estados Unidos e no Japão. Me lembra um pouco a dicção da série de documentários sobre Chico Buarque.

"Coração Vagabundo", na sua proposta despretensiosa, está longe de ter a magia e a poesia de "Música é Perfume", sobre Maria Bethânia, uma das fitas que integram o meu top ten, ou top 20, ao menos. Nada que o diminua..."Coração Vagabundo" não deixa de respirar alguma sensibilidade.

Caetano não deixar de chuçar os formadores de opinião com provocações, o que é do seu estilo: prega, por exemplo, que a música popular americana bate qualquer outra, é a maioral no mundo.

De todo modo, vá correndo ao cinema enquanto é tempo...

P.S.: Estou com Caetano quando vê as sobremesas japonesas, aqueles doces feitos de feijão, como cafonas. Na Coreia dos meus antessados, me parece que esses doces que são uó também existem. Gosto e aparência são mesmo meio kitschs.

Em tempo: Concluí meu roteiro de curta intitulado "Tiro pela Culatra". O curso foi bastante instrutivo, aprendi horrores, embora não me veja como roteirista. Mas serviu para lustrar o meu diletantismo militante. O curso é sérissimo. Espero nunca ver filmado, traduzido em imagens o meu texto...



Escrito por gabriel às 18h23
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