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A MARAVILHOSA COZINHA DE HOUAISS - PARTE II

A seguir, continuo estampando as "Reminiscências culinárias", de Antônio Houaiss. À mesa, pois!!!

"Aprendi, desde então, que repetir matéria-prima alimentar, prato, receita, feitura - ou é desumanidade mais burrice mais estupidez mais comodismo, ou é exploração do homem pelo homem, isto é, achatamento com aviltamento com depauperamento (físico e mental) do homem. E adorei, desde cedo, a palavra onívoro, que até hoje, muito enfaticamente, pronuncio (como certos outros velhos da minha idade) omnívoro.

Já a partir desse momento comecei a desconfiar dos boas-bocas. São esses seres que, se convidados para uma refeição em sua casa, o tranquilizam, afirmando que são boa-boca. Livrei-me cedo dessa peste, quando recebi uma delas e pedi a minha mãe que requintasse. A peste foi impotente de sequer tocar num só dos pratos oferecidos - rejubilando-se com a solução 'de indústria', uns restos de feijão preto, de arroz, de farinha de mandioca, de laranja cortada e um bife frito na hora -, que o monstrinho honrou bobamente feliz, na sua felicidade cotidiana, para tristeza e constrangimento nosso. (Nutro, vindicativamente, a ilusão de que o inferno é pavimentado de muitos e muitas boas-bocas.

Com tais preâmbulos, devo confessar que eu era, pelos nove anos, o que são, adultos, todos os bons gastrônomos, a saber, era admirador incondicional da cozinha de minha mãe, que - trabalhadeiríssima - só nos dava a dita em fim de semana. Falo da mãe de todos os gastrônomos e, felizmente, de todos os bons comedores qualitativos - que se tende a dizer à francesa gourmets - e, infelizmente, de todos os grandes comedores quantitativos - que se tende dizer à francesa gourmands. Mas repito: a mãe é na reminiscência universal a grande cozinheira, a grande iniciadora da boa sobrevivência, a grande multiplicadora não apenas da vida, mas da alegria de viver, que vem dela - em função do maior prazer - e sobrevive graças a ela - em função do segundo maior prazer. Terceiros ou quartos - poder, riqueza, ódio - são compensãções...Mas a mãe só é justiçada a tal respeito nas confidências, porque - machistíssimos como somos desde o império do patriarcado universal (ou quase) - só consagramos os grandes cozinheiros, os grandes chefs, os grandes gastrônomos...

Muito cedo - 16-17 anos -, comecei meu magisteriozinho (antes, fui balconistinha ou balconistinho...): datilografia e português (que eu ensinava, fique claro...). Lembro-me de que já adorava o primeiro prazer (num mundo em que, parece, a função das mulheres era negar, até quando estavam desnegando), mas continuava com minhas buscas quanto ao segundo. Nesse ponto, fui abençoado: o risco de pecar por antecipação já não corro - não ficarei gordo. Corri outras vezes o outro risco, o de tangenciar o macérrimo, que é tão pecado quanto o outro. Sei que sempre - ante o mais saboroso prato que me fosse dado degustar - soube e sei comedir-me, parando (com olhos imensos de vontade de prosseguir) ante certas iguarias, a fim de não guardar delas má memória, por enfartamento. (...)"

(CONTINUA...)

 

 



Escrito por gabriel às 15h27
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